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O caso Monte Cook Games e o abismo entre discurso e curadoria na era da IA

A Monte Cook Games reeditou um vídeo institucional após o público notar elementos gerados por IA em stock footage. Entenda o caso e os desafios de curadoria.

Por Taiguara Rangel 31 de agosto, 2026 3 min de leitura
Ficha de RPG em vídeo da Monte Cook Games com texto sem sentido gerado por inteligência artificial
Cena do vídeo original da Monte Cook Games com ficha contendo texto sem sentido gerado por IA
A Monte Cook Games (MCG) removeu e substituiu um vídeo promocional após a comunidade identificar elementos gerados por inteligência artificial nas filmagens de apoio. O caso ganhou repercussão porque a editora mantém uma postura pública rígida contra o uso de ferramentas generativas em suas publicações. O episódio expõe a dificuldade prática de aplicar diretrizes éticas quando a cadeia de produção envolve fornecedores terceirizados e bancos de imagens.

O material, intitulado The Joy of RPGs, foi veiculado no YouTube e em outros canais oficiais da empresa. Jogadores notaram que uma das cenas mostrava uma criança segurando uma folha de personagem com textos ilegíveis e traços visuais característicos de imagens criadas por algoritmos. Após os apontamentos do público, a editora retirou o arquivo do ar e publicou uma versão reeditada sem os trechos problemáticos. O site EN World revelou os bastidores do ocorrido na última sexta-feira (28).

O que a política da MCG diz sobre IA e serviços terceirizados

Na página oficial de Valores Centrais, a Monte Cook Games classifica o uso de algoritmos generativos como o oposto direto de visão e paixão criativa. A declaração institucional sustenta que a empresa publica apenas obras nascidas da mente e do coração de pessoas criativas. No entanto, o texto não estabelecia regras claras de triagem para serviços contratados externamente, como produtoras de vídeo e bibliotecas de stock footage.

A Monte Cook Games explicou que a peça audiovisual foi desenvolvida por uma equipe externa, que adquiriu clipes no Adobe Stock. Em declaração ao EN World, o diretor de arte Bear Weiter afirmou que a produtora não percebeu que os adereços de cena continham geração sintética. Weiter também reconheceu que a própria editora falhou na checagem final antes de autorizar a veiculação.

Os desafios práticos de verificação no mercado de RPG

Para corrigir a publicação, Weiter substituiu clipes de vídeo e imagens para eliminar qualquer elemento sintético restante. Contudo, a editora ainda não detalhou um protocolo técnico fixo para auditar futuras contratações. O diretor de arte pontuou que o mercado de banco de imagens virou um ambiente complexo e que a triagem de materiais será uma exigência pesada para todo o setor criativo.

Outras editoras de RPG de mesa enfrentam desafios semelhantes. Empresas de grande porte já atualizaram manuais para barrar ilustrações de IA no miolo e nas capas de livros, mas peças promocionais de marketing rápido continuam vulneráveis a falhas de curadoria. O episódio da MCG acelera a necessidade de protocolos técnicos de inspeção em todas as etapas de contratação.

Curadoria técnica como divisor de credibilidade

Esse cenário mostra que manifestos institucionais e declarações de princípios não bastam sem processos ativos de controle de qualidade. A Monte Cook Games agiu com rapidez ao reconhecer a falha interna, mas o mercado agora exige métodos comprovados de auditoria visual. Para editoras que atendem a uma comunidade atenta à autoria humana, o próximo passo indispensável é instituir checagens contratuais e técnicas obrigatórias para qualquer fornecedor.

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