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quinta-feira, 13 de agosto de 2026
Acadêmico

Jogos de RPG na América Latina: o que está sendo pesquisado

Por Camilo Mendivelso 13 de agosto, 2026 7 min de leitura
Colagem reúne ilustração e apresentação do 10º Colóquio Internacional de Estudos sobre Jogos de RPG
O 10º Colóquio Internacional de Estudos sobre Jogos de RPG reuniu pesquisas de 13 países entre 29 e 31 de julho de 2026.
Este artigo foi publicado originalmente em espanhol pelo Iniciativa RPG, em 11 de agosto de 2026, e traduzido para o português por Diogo Almeida como parte de uma colaboração com o Mesa de RPG.

O que acontece quando os jogos de RPG deixam de ser estudados unicamente a partir dos títulos que dominaram o mercado anglo-saxão e começam a ser observados a partir dos territórios, comunidades e experiências da América Latina?

As pesquisas apresentadas durante o 10º Colóquio Internacional de Estudos sobre Jogos de RPG, realizado de 29 a 31 de julho de 2026, oferecem algumas respostas. México, Argentina, Colômbia, Brasil e Chile estiveram presentes com trabalhos sobre design, educação, memória, identidade, história, filosofia, comunidade e apropriação cultural.

O programa completo recebeu 59 propostas de 85 autores e autoras procedentes de 13 países. O México foi o país com mais trabalhos enviados, 17, seguido pela Argentina, com 13. A Colômbia apresentou seis, o Brasil quatro e o Chile três. A pesquisa transdisciplinar foi a linha mais numerosa, seguida por pedagogia e didática, estudos culturais e antropologia, psicologia e comunicação.

Os números permitem dimensionar a participação regional, mas as perguntas das apresentações contam uma história mais interessante. Diversas pesquisas estão utilizando os jogos de RPG para falar de assuntos profundamente situados: mitologias colombianas, história mexicana, identidade argentina, design a partir do Sul Global e as particularidades das comunidades de RPG latino-americanas.

Pensar os jogos criados a partir do Sul Global

Uma das propostas mais diretas foi “World RPG: una categoría crítica para los juegos de rol del sur global”, apresentada por Diogo de Almeida Camelo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Brasil.

O trabalho propõe o conceito de world RPG para estudar jogos produzidos a partir do Sul Global que se afastam estética, política ou epistemologicamente dos paradigmas anglo-americanos e eurocêntricos que marcaram boa parte do design de RPG.

A categoria dialoga com conceitos como world cinema, world music e world literature, mas apresenta uma advertência importante: chamar uma obra de “regional” tampouco garante que ela questione os modelos dominantes. Um jogo latino-americano pode reproduzir as mesmas estruturas culturais de um produto estadunidense. Para Camelo, a distinção precisaria ser buscada em aspectos como a localidade simbólica, as cosmologias do jogo, sua estrutura decolonial, a representação crítica e a produção comunitária.

A abordagem toca em uma discussão que vem sendo desenvolvida há algum tempo nos estudos de RPG. Em 2024, a Analog Game Studies dedicou uma edição especial completa às perspectivas latino-americanas. Seu editor, Miguel A. Bastarrachea-Magnani, indicava que a pesquisa regional havia aumentado durante a década anterior, embora boa parte desse trabalho continuasse com pouca circulação fora de suas próprias redes acadêmicas.

Essa edição incluiu estudos sobre educação no México, narrativas culturais na Colômbia, rituais dentro de Dungeons & Dragons e metodologias para estudar campanhas prolongadas de RPG.

A discussão de 2026 dá continuidade a esse percurso, mas começa a colocar com maior frequência as experiências latino-americanas no centro da pergunta.

Nahual e o problema de jogar com a história

O México apareceu com um dos casos mais claros.

Fernando José Nieto Reynaldos apresentou “Jugar Nahual con perspectiva decolonial: el desafío de jugar con la historia de México sin trivializarla”, uma pesquisa construída em torno de mais de 200 sessões de Nahual, jogo criado por Miguel Ángel Espinoza a partir do universo de Operación Bolívar, de Edgar Clément.

Capa do livro de RPG mexicano Nahual, de Clément e Espinosa, sobre fundo branco
Nahual é um RPG mexicano criado por Miguel Ángel Espinoza a partir do universo de Operación Bolívar, de Edgar Clément.

O trabalho analisa como uma mesa pode utilizar elementos históricos, políticos, teológicos e culturais mexicanos sem convertê-los em decoração exótica. A proposta estuda o uso de regionalismos, humor e jogos de palavras, além da forma como os jogadores negociam coletivamente sua relação com a história e a identidade durante a partida.

Nahual é especialmente útil para essa conversa porque seu mundo também não parte de uma fantasia genérica. Seus protagonistas são bruxos nahuais mexicanos de ascendência mestiça e indígena que podem adotar formas animais. Eles caçam anjos para sobreviver e administram juntos um pequeno negócio no qual comercializam produtos obtidos dos corpos dessas criaturas.

A pesquisa desloca a atenção da representação contida no livro para aquilo que acontece quando esse material chega a uma mesa. A cultura não fica fixada pelo autor. Os jogadores também a interpretam, negociam e transformam.

Colômbia: criar jogos a partir do território

Em Medellín, pesquisadores da Institución Universitaria Pascual Bravo têm trabalhado com os jogos de RPG a partir de outra perspectiva: o design como ferramenta para explorar identidade local, educação e território.

Francisco Fernando Gallego Escobar, Juan David Henao Santa e Jackeline Valencia Londoño apresentaram um avanço do projeto Guacas y Entierros / Hoards and Caches, desenvolvido em torno de mini-RPGs criados a partir de repertórios mitológicos.

Guacas y Entierros parte de mitos colombianos. Seu sistema utiliza cartas tradicionais para antecipar resultados antes que o jogador narre a ação. A resolução busca deslocar a atenção da estatística para a interpretação e permitir que as cartas organizem tensões entre elementos mágicos e cotidianos.

A pesquisa surgiu dentro de um projeto sobre narrativas emergentes, identidades locais e cenários transmídia. Seu desenvolvimento também contempla usos pedagógicos e bilíngues dentro da instituição.

Esse trabalho possui antecedentes. Gallego Escobar e Henao Santa participaram da edição especial latino-americana da Analog Game Studies com uma pesquisa sobre design de RPG e narrativas culturais realizada a partir de experiências acadêmicas na Colômbia.

Há uma continuidade interessante entre os dois projetos: utilizar o design de jogos para trabalhar com elementos culturais concretos em vez de adaptar primeiro o território a uma estrutura fantástica importada.

Argentina: jogar também pode produzir uma versão do território

Na Argentina, Fernando Daniel Albor levou ao Colóquio um estudo sobre Misteriosa Argentina: La Plata.

A pesquisa analisa como o jogo utiliza história, folclore e figuras reais do pensamento argentino para construir seus mistérios. Entre os personagens que podem aparecer estão Florentino Ameghino, Cecilia Grierson e Alejandro Korn, cujas áreas de conhecimento integram a maneira como os participantes interpretam a ficção.

Um dos elementos centrais é a chamada “Tese Unificada”. Os jogadores recebem fragmentos ambíguos de informação e devem elaborar coletivamente uma explicação para o mistério. A solução não se encontra previamente fechada no manual. Ela surge das relações que a mesa estabelece entre as pistas disponíveis.

Albor descreve esse procedimento como uma forma de construir identidade situada. La Plata, seus personagens históricos e seus imaginários deixam de funcionar como um fundo reconhecível e participam diretamente da estrutura do jogo.

Uma perspectiva latino-americana também precisa conhecer suas comunidades

A pesquisa regional não se limitou ao design.

O programa de 2026 incluiu trabalhos sobre podcasts, censos, eventos, comunidades locais, mundos compartilhados e formas de conarração. Uma das mesas-redondas foi dedicada especificamente a “comunidades, meios e mediações culturais do RPG”, com participantes da Argentina, do Chile e de outros países da região.

José Zagal, professor do Rochester Institute of Technology e um dos pesquisadores mais reconhecidos internacionalmente nos estudos de jogos, também dedicou uma conferência magistral a “Os jogos de RPG na América Latina a partir do caso chileno”.

A presença dessas pesquisas permite ampliar o objeto de estudo. Falar de RPG na América Latina também implica estudar quem joga, onde se reúne, quais meios produz, como conserva seus arquivos e quais diferenças existem entre comunidades que compartilham idioma ou proximidade geográfica.

Ainda existem lacunas importantes. O volume de pesquisas é desigual entre os países, uma parte considerável permanece em congressos ou publicações acadêmicas de circulação limitada e é difícil construir panoramas regionais com dados comparáveis.

Ainda assim, o percurso dos últimos anos permite reconhecer uma agenda própria. Os jogos de RPG aparecem como ferramentas para estudar educação, memória, território, identidade, comunidade e design. Eles também começam a ser investigados a partir de experiências que não precisam tomar os Estados Unidos ou a Europa como ponto de partida permanente.

A América Latina joga RPG há décadas. Cada vez contamos com mais ferramentas para estudar o que ela fez com ele.

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